Sarah Chaves

Rubem Alves

19/07/14

Meu coração lembra com ternura do dia em que me apaixonei à primeira vista.

“Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar…

Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela deitar o nosso corpo.

Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus (seria necessário que fôssemos deuses para verificar tal verdade); ela vale pelo bem que faz à nossa carne.

Ah! Pensam que sou herege… Nada disto. Estou apenas repetindo coisa muito velha, esquecida, da tradição protestante, que diz que ‘conhecer a Cristo é conhecer os seus benefícios’: de Deus, o único que podemos saber é o bem que faz ao nosso corpo. Com o que concorda o sábio Riobaldo: ‘Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. E o aberto perigo das grandes e pequenas horas… Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma.’

Aqui se resume a teologia; o resto são floreios.

Há palavras que moram na cabeça e são boas para serem pensadas. Com elas se faz a ciência.

Mas há palavras que moram no corpo, e são boas para serem comidas. Chegam à carne sem passar pela reflexão.

Magia. Ou poesia, que é a mesma coisa.

Dito de forma clara, vi pela primeira vez na Emily Dickinson: ‘Se leio um livro e ele torna/ o meu corpo/ tão frio que nenhum fogo seria jamais capaz/ de me aquecer,/ eu sei que aquilo é poesia./ Se eu sinto,/ fisicamente,/ como se o topo de minha cabeça tivesse sido/ arrancado,/ eu sei que aquilo é poesia.’

Por isto que, pra mim, poesia e magia são a mesma coisa: a imagem é coisa bruxa que me possui,/ se encarna em mim./ Teologia é um exercício de feitiçaria, variações sobre o tema da encarnação…/ Deus se fez Carne,/ Deus é a Carne em que se revelou,/ Deus acontece quando o poema toma conta do Corpo.

Isto é o único que podemos dizer de Deus. Não que saibamos coisa alguma a seu respeito.

Mas bem sabemos que aquilo que está acontecendo com o nosso corpo é coisa divina, que deveria existir sempre, eternamente, e bem mereceria que o nosso corpo ressuscitasse, eterno retorno, para que o Poema fosse eternamente repetido, gozo, orgasmo, ciclo que sempre volta ao início, canon, contraponto, variações sobre um mesmo tema.

Damos o nome de Deus a este êxtase do corpo (ou da alma; não sei onde é que os dois se separam) possuído pela beleza.

Não há mistérios fora disto sobre que possamos falar.

Cito, como autoridade, outro teólogo, Alberto Caeiro: ‘Pensar em Deus é desobedecer a Deus…’

A única coisa que temos é o tremor na carne quando nela acontece a magia, e ela fica possuída pelo poema. É então que as ausências se fazem presenças (fugidias…). Aquilo que Nietzsche sugeriu: ‘Será que não percebes que o que amam em ti é o brilho de eternidade em teu olhar?’ O crpo vira altar – ou, como diriam os teólogos, ‘locus revelationis’ – o lugar onde se torna visível que somos habitantes de um outro mundo. Não, não me entendam mal quando falo de ‘outro mundo’. Nada a ver com céu ou inferno…

De novo é a Poesia: ‘Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim, todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e de tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais. Sua própria realidade compacta nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro modo? Não, isto que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos e queríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que somos de outro mundo…’ (Octávio Paz)

Se uso a palavra Deus é como metáfora poética, nada que eu conheça, o significante que nada significa, a não ser o espaço vazio onde aparecem as minhas nostalgias e onde se coloca o dizer poético. De Deus só temos o Verbo, Poema, coisa que se diz quando a saudade dói… Isto não é jeito que eu tenha inventado.

Aprendi, lendo as Sagradas Escrituras, onde está interditado o simples pronunciar do Nome Sagrado, que sempre que aparecia no texto era substituído por um outro – Tabu! – e, se o simples pronunciar do Nome Sagrado era blasfêmia, que dizer das tentativas de se escreverem anatomias e fisiologias do Mistério Divino, isto a que se dá o nome de teologia?

Deus é símbolo que marca uma proibição de falar. Onde ele se diz estabelece-se um grande silêncio. E sobre ele surgem as metáforas, que é um jeito de dizer o que não pode ser dito.

Não podemos falar sobre Deus, mas podemos falar sobre as coisas humanas. Teologia são os poemas que tecemos como redes sobre a saudade de algo cujo nome esquecemos.

Qual deles é verdadeiro? Poemas não podem ser verdadeiros. Mas devem ser belos.

E é só por isto que eles têm o poder mágico de possuir o corpo. A verdade é o que é; o que está presente. Mas o corpo se inclina para o que não é – Desejo! – o que ainda não nasceu, ou que já morreu, contornos do ‘pedaço arrancado de mim’. E me veio esta idéia insólita de que Deus é o nome que damos a esta ausência que habita o corpo…

O que me leva a uma absurda conclusão: para fazer teologia não é necessário acreditar que Deus exista.

A Cecília Meireles só escreveu sua ‘Elegia’ depois da morte de sua avó. O poema descreve o mundo mágico que ficou no espaço vazio deixado por um corpo que se foi.

‘Teu como era um espelho pensante do universo…’ Teologia não é coisa de quem acredita em Deus mas de quem tem saudades de Deus.

Acreditar: sei que Deus existe em algum lugar. Ah! Se não existir, tudo estará perdido…

Ter saudade: mesmo que não exista lá fora, no meio das nuvens ou no fundo do mar, eu o mantenho como ‘pedaço arrancado de mim…’ ‘Oh! Pedaço arrancado de mim…/ Oh! Metade arrancada de mim…/ A saudade é o revés do parto/ A saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu…’ (Chico)

Teologia, celebração de um vazio que nada pode encher. E só por isto que dizemos que Deus é Infinito. Não porque o tivéssemos medido, mas porque sentimos o Infinito do desejo que coisa alguma pode satisfazer. Daí que estamos condenados a ser eternos pranteadores…

Mas teologia é coisa bela, um sonho…

Sonhamos com Deus e o sonho interpretado deixa ver os cenários que existem nos vazios da nossa nostalgia (ocultos pela bruma do esquecimento). E então nos tornamos poetas…

Acontece que o mundo está cheio de loucos.

Muitos pensam que o que dizem sobre Deus tem conseqüências cósmicas (mais próximos da verdade estariam se se contentassem com as conseqüências cômicas)… O que me faz lembrar a estória de um galo que acordava bem cedo, todas as manhãs, ainda escuro, e anunciava solene aos seus companheiros, bichos de galinheiro: ‘- Vou cantar para fazer o sol nascer…’

E se empoleirava no alto do telhado, olhava para o horizonte, e ordenava, categórico: ‘-Co-co-ri-co-có…’

Dali a pouco a bola vermelha mostrava o seu primeiro pedaço e o galo comentava, confiante: ‘- Eu não disse?…’

E os bichos ficavam boquiabertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra fazer o sol nascer. E nem havia sombra alguma de dúvida, porque tinha sido sempre assim, com o galo-pai, com o galo-avô…

Aconteceu, entretanto, que o galo certo dia perdeu a hora, e quando ele acordou o sol já estava lá, brilhando no meio do céu…

Há teólogos que se parecem com o galo. Acham que, se não cantarem direito, o sol não nasce: como se Deus fosse afetado por suas palavras. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente e condenam outros a fechar o bico, sob pena de excomunhões. Claro que fazem isto por se levarem muito a sério e por pensarem que Deus muda de idéia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos. O que é, para mim, a manifestação máxima de loucura, delírio maníaco levado ao extremo, este de atribuir onipotência às palavras que dizemos.

Teólogos são, freqüentemente, galos que discutem qual a partitura certa: que canto cantar para que o sol levante? Neste sentido, conservadores fundamentalistas não se distinguem em nada dos teólogos científicos que se valem de métodos críticos de investigação. Todos estão de acordo em que existe uma partitura original, revelada, autoritativa, e que a tarefa da teologia é tocar sem desafinar. As brigas teológicas são discussões sobre se a tonalidade é maior ou menor, ou se o sinal é bemol ou sustenido. Uns querem que seja tocada com orquestra de câmara e outros afirmam que o certo é tocar com banda. Qualquer que seja a posição, todos afirmam que existe um único jeito de tocar a música. Usando palavras de Lutero, ‘unum simplicem solidum et constantem sensum’ – o sentido uno, puro, sólido e constante. Desafinações, variações ou modificações trazem consigo o perigo de alguma grave conseqüência.

Eu penso, ao contrário, que não é nada disso.

O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem galo.

Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida, diminui seu senso de importância, mas tem a compensação do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.

Mais do que isso: o galo pode inventar outros cantos, sabendo que o sol não vai se zangar e vai nascer como sempre, no mesmo lugar.

Traduzido em jargão teológico isto significa ‘graça’: a bondade de Deus continua a mesma, sempre, independente de nossas afinações ou desafinações. Ele nem nasce melhor quando estamos afinados e nem nasce pior quando estamos desafinados… Temos, portanto, a liberdade de fazer o que quiser… Eu não suportaria pensar que o meu pensamento é tão poderoso que, caso eu pense errado, Deus vai ficar torto.

A partitura tem o nome de teologia, mas quem dança somos nós…”

Grande Mestre, Obrigada!

Com amor, Sarah Chaves

 


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