Sarah Chaves

Marta

Cresci me alimentando de um discurso de que eu tinha que ser excelente em tudo. Me via (me vejo) muitas vezes tipo barata tonta indo e vindo focada e perdida tentando ser a melhor em cada lugar que eu ocupava. Frustrada porque eu nao dava conta da maternidade, do trabalho, da igreja, do casamento, de mim, tudo tendo que bater a meta da excelência.
Fui parar no hospital por estresse algumas vezes. Desmaio, dor de cabeça, gastrite, diarreia, inflamação, rouquidão, alergia.
Um dia tive uma briga com marido e no meio da discussão ele disse: “parece que você está sempre em alerta! Não consegue desligar!”.

Existem alguns personagens da Bíblia que eu gostaria que me comparassem mas a minha vida me trouxe um nome que não é muito gostoso de ouvir por causa da história: Marta.

Marta significa “senhora” ou “dona da casa”. Na Bíblia era irmã de Maria e Lázaro (amigos de Jesus) e aparece nos evangelhos de Lucas e João.

“Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo-lhe a palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: “Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude! “
Respondeu o Senhor: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada”.

Lucas 10:38-42

Ter uma marta em casa, no círculo de amigos, na igreja, no trabalho, pode ser muito confortável para os outros. As pessoas naturalmente vão empurrando as coisas pra ela com a desculpa de que ela gosta de fazer. Ela dá conta. Ela curte isso. Se você é como Marta, sabe que chega uma hora que a gente fica sobrecarregada e até chateada quando chega uma visita e a gente fica sozinha fazendo as coisas da casa pra servir a visita. Você constantemente perde a oportunidade de aproveitar o momento por causa do excesso de zelo.

É muito complicado abrir mão do controle sabendo que as coisas podem dar errado. Quantas vezes posterguei decisões porque ficava imaginando o que aconteceria se eu pedisse demissão, por exemplo. O trabalho que eu daria, como meus alunos ficariam, como seria a adaptação, quem iria me substituir…

É difícil não se importar com coisas que estão fora do seu controle não é?! Eu sei que é.

Outra coisa é que as pessoas estão prontas pra despertar quem as sobrecarrega, mas se acomodam com as que as aliviam. Difícil ter quem assuma o teu lugar pra você descansar. Tive algumas pessoas que posso contar nos dedos de uma mão que me pararam a força pra eu não escangalhar por causa dos meus excessos e críticas internas.

Em João 11:5 tá escrito que Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro.
Jesus foi um bom amigo de libertar Marta do seu perfeccionismo indicando que o necessário naquele momento era somente sentar e ouvir.

Junior faz esse papel na minha vida de repetir pra mim que não é minha responsabilidade. É muito difícil introjetar essa fala, mas quando consigo, é um alívio.
Tenho esse impulso de assumir e me comprometer. Eu inclusive gosto desse lugar de entrega, de intensidade, de serviço. Mas quando em desequilíbrio com o descanso aos pés de Jesus na companhia de bons amigos, esse lugar de entrega acaba comigo.

Veja que ser zeloso, cuidadoso, responsável, proativo, amigável, não é um problema. O problema está no desequilíbrio quando você deixa de se perceber, deixa de alimentar seu corpo, sua mente, seu espírito se doando até ficar sem reservas pra se manter saudável. Usa uma quantidade de energia superior ao que é necessário pra que aquele lugar funcione bem.

O exercício que proponho hoje é da gente experimentar “mudar de nome” por um tempo. Ver como é isso de sentar, respirar fundo e curtir a companhia. Eu tenho mesmo que cumprir 15 coisas da minha lista de afazeres do dia? Se eu não fizer, o que acontece? Posso lidar com as consequências disso? Posso não me oferecer pra levar a comida mais difícil da festinha da escola? Posso dizer não pra um amigo querido pela primeira vez na vida? E se ele ficar bravo? Como eu vou lidar com isso?

Se fazer essas perguntas e responder honestamente vai dar menos trabalho num futuro próximo do que se obrigar a tentar lidar com tudo o tempo todo. Acredita.

Você não é uma pessoa ruim quando coloca e respeita limites. Você não é egoísta quando precisa de espaço, de uma pausa pra se reorganizar. Principalmente se essa pausa vai contribuir com seu amadurecimento.

Seu tempo e sua saúde física, mental e espiritual são seus tesouros. Cuida.

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